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Pesquisa sobre tubarão branco a bordo do Ocearch

by Brazil Away
Gisele Montano

No meu dia a dia estou acostumada a ter o controle de várias coisas, até porque, se não fosse assim, ninguém chegaria à escola a tempo, iria ao karatê, piano ou teria o jantar sobre a mesa. Mas aqui não é assim. Uma vez que você entrar neste barco de pesquisa do Ocearch, pode esquecer de ter o controle.

Por Gisele Montano, veterinária e pesquisadora de animais marinhos.

Ocearch

Fotografia: Ocearch

E nem sequer tem como convencer ou pedir que as coisas sejam feitas de alguma maneira, porque as decisões são tomadas baseadas na direção e intensidade do vento, altura da maré e direção da correnteza. São pessoas com experiência em pescar tubarão branco que tomam as decisões de quando sair ou voltar para o cais, e onde ancorar e começar a pescar.

Todos nós demoramos alguns dias nessa adaptação. Todo mundo quer saber a que horas vamos sair desse cais, onde vamos jogar as linhas com as iscas, e se for muito longe, teremos internet? Porque neste barco não tem wi-fi. Os primeiros dias são sempre de aclimatação.

O time de pescadores está sempre aqui, e é sempre o mesmo em cada expedição. O pessoal da mídia às vezes muda e o time de cientistas sempre muda. Sempre tem algum estudante de doutorado novo por aqui ou um pesquisador com quem eu ainda não tinha coincidido a bordo. Acho extremamente enriquecedor falar com eles. Cada um tem sua história e um caminho de como chegou até aqui.

Quando tem sol, nos reunimos em uma mesa, no meio da coberta do barco, para nos aquecer ou para nossas reuniões em que decidimos quem vai fazer qual parte do procedimento. São muitos projetos de pesquisa, mais de 20 por cada expedição, e somente 5-6 cientistas a bordo.

Então sempre pegamos amostras ou fazemos exames para os outros cientistas. Serve de prática para os estudantes, de experiência para todos e potencializa o número de estudos que podem ser feitos por cada animal.

Ocearch

Fotografia: Ocearch

Depois dos primeiros dias de expedição, quando estamos há várias milhas dentro do mar, e aceitamos que não temos contato com o mundo, o clima da expedição muda. Todos nós só pensamos em como ajudar para trazer um tubarão branco para a plataforma, poder ver de muito perto o maior predador do oceano, que tem a reputação de ser extremamente agressivo, e coletar as amostras de que precisamos para os estudos.

Várias linhas com isca esperam por eles. O time de pescadores fica em um barco menor, perto das boias com as linhas. Os cientistas ficam no barco maior.

Arrumamos o equipamento que vamos usar, organizamos o laboratório montado em um balcão e estamos prontos. Nós nos revezamos para observar as boias desde o barco. Algumas são vistas desde a parte de trás (popa) e outras ou na frente (proa).

Somos vários espalhados pelo barco de 38.4 m de comprimento. Alguns com binóculos, outros sem. Às vezes passamos dias assim, horas olhando o mar sem fim e algumas esferas de diferentes tamanhos de cor vermelha boiando. Raramente vemos um tubarão se aproximando do barco, mas quando isso acontece, é uma emoção muito grande e nos juntamos todos para ver o animal nadando próximo à superfície, e tentamos identificar a espécie, adivinhar o tamanho e ver se é um macho ou uma fêmea.

Quando vemos que uma das bóias menores afundou, voltou à superfície e começou a flutuar para longe da boia maior, isso significa que um tubarão mordeu a isca e está indo embora com ela. Os pescadores do barco menor vão até o tubarão, recolhem a boia, pegam a linha e trazem o tubarão até a plataforma do barco grande. “Tubarão na linha” é o que ouvimos pelo rádio. Esse é o momento de mais tensão. Não sabemos se o animal vai soltar a isca, seu tamanho ou nenhum outro dado. Começamos a nos preparar para subir na plataforma. Cada um dos pesquisadores pega seu material ou equipamento, seringas e agulhas para as amostras de sangue, tubos para parasitas, amostras de músculos e cotonetes, cateter de borracha para amostras de fezes e sêmen e ultrassom para exame dos órgãos internos.

O barulho que a plataforma faz quando é levantada e colocada na água é bem característico de qualquer peça hidráulica. No entanto, para nós que trabalhamos com animais ou em laboratório, esse barulho acaba sendo associado com um tubarão branco prestes a aparecer na superfície da água.

A plataforma é submergida, o tubarão é trazido exatamente em cima dela e então a plataforma sobe até se emparelhar com barco. Subimos e começamos a fazer os exames e tomar as medidas de diferentes partes do corpo. Enquanto isso, o tubarão, com uma toalha na cabeça para cobrir os olhos, recebe fluxo de água através de uma mangueira na boca, e é molhado continuamente com água do mar. Tudo deve terminar em menos de 15 minutos, e às vezes me parece incrível que realmente consigamos fazer tudo isso em tão pouco tempo.

Cada animal recebe até três diferentes tipos de rastreadores. Um rastreador acústico é colocado de maneira cirúrgica dentro da cavidade celômica do tubarão. Ele pode funcionar por 10 anos e envia ondas sonoras para receptores que funcionam como hidrofones que instituições de pesquisa têm distribuídos ao longo da costa leste dos Estados Unidos e Canadá. Outro monitor (PSAT) é inserido na base da nadadeira dorsal e se solta sozinho depois de um ano. Durante esse tempo ele armazena informações sobre a profundidade, temperatura e intensidade de luz da água. Ele contém um sistema de flutuação e uma vez que alcança a superfície, envia sua localização através de satélite.

O ideal é ir até o local, recuperar o rastreador e conectá-lo ao computador para baixar toda a informação ali contida. Caso isso não seja possível, parte da informação já começa a ser transmitida por satélite no momento em que o rastreador chega à superfície. O terceiro tipo de rastreador (SPOT tag) vai montado na nadadeira dorsal com parafusos que se degradam em 5 anos. Esse localizador tem um dispositivo eletrônico que aciona quando o animal está perto da superfície, pois o dispositivo seca com o ar e liga sozinho, imediatamente enviando a sua localização por via satélite.

Desta maneira, com as informações obtidas da combinação dos rastreadores, podemos montar um mapa de distribuição, uso de habitat e padrão migratório dessa espécie. Já sabemos que os tubarões brancos, da população do Noroeste do Atlântico, ocupam uma área que vai desde a costa da Flórida até a costa do Canadá, e que os filhotes de aproximadamente um ano de idade ficam nas águas da costa do estado de Nova Iorque, antes de descerem em direção ao sul pela primeira vez.

As expedições do Ocearch ocorrem em diferentes pontos dos Estados Unidos e Canadá, bem nessa rota migratória. Geralmente são três expedições ao ano, de fevereiro a março na área sul dos Estados Unidos (Flórida, Geórgia, Carolina do Sul e Carolina do Norte), no mês de agosto em Massachusetts, e em setembro e outubro no Canadá. As expedições duram 3 semanas e o local exato muda de acordo com o clima da região em cada ano. Também houve um estudo de tubarões branco de menos de um ano de idade no estado de Nova Iorque. É importante coletar amostras dos animais em diferentes locais para saber porque eles vão até lá e o que fazem quando estão nessas áreas, pois passam certo tempo nesses lugares-chaves (as costas dos estados mencionados anteriormente).

Várias especulações já foram feitas sobre esse padrão de migração, tipo de dieta e locais onde se reproduzem. Eu tenho participado na construção de algumas das teorias e agora só temos que esperar o término da compilação dos resultados. Todo esse esforço por conhecer mais sobre uma espécie é de uma importância enorme. Muito se fala sobre a conservação dos oceanos, dos animais e seres que nele habitam. Como sabemos exatamente o que proteger? Por onde começar? Nossa pesquisa ajuda exatamente nisso.

Ainda faltam 16 tubarões brancos para terminar o estudo desta população. Depois que as expedições deste ano estiverem terminadas e tivermos um total de 100 tubarões no estudo, este barco de pesquisa irá em direção a Europa, onde receberá cientistas locais que se integrarão a alguns de nós, e começarão a estudar a população de tubarões brancos do Reino Unido e Mediterrâneo. Mal posso esperar para ver o fechamento das expedições na América do Norte e os resultados finais. E claro, também vou gostar de ouvir as histórias e me surpreender com novos achados científicos sobre esta espécie tão cativante.

O Ocearch é uma empresa sem fins lucrativos que permite que os pesquisadores tenham acesso aos tubarões brancos. Eles têm um app que se chama Shark Tracker pelo qual se pode ver a localização em tempo real dos tubarões rastreados.

Para saber mais: www.ocearch.org

 

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